21 de dezembro de 2007

Estrelinha

O voo das borboletas vai sossegar por uns dias...

A todos os que têm partilhado este espaço comigo, agradeço a generosidade.
Desejo-vos um Bom Natal e Feliz Ano Novo, esperando, acima de tudo, que passem estes próximos dias em boa companhia.
Que a vossa estrela brilhe sempre!

...até Janeiro!

Kathy Weller

Best wishes for Christmas


I´m thinking of you and wishing you joy


A Merry Christmas!




Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio do Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos. E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.




David Mourão-Ferreira

18 de dezembro de 2007

Wishing you a Happy Christmas


The Christmas morning post


A bright and happy New Year

Hymno de Amor

Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazareth,
Em companhia
De San José,
O bom-Jesus,
O Deus-Menino.
Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha attrahido,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sae do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe n'um canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma cadencia,
Que commovia
O coração!

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avesinha
Continuando
No seu gorgeio
Em quanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira
E mal poisava,
Não afrouxava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo
De tal maneira,
Que noite e dia
N'uma palmeira,
Que havia perto
D'onde morava
Nosso Senhor
Em pequenino,
(Era já certo)
Ella lá estava
A pobre ave
Cantando o hymno
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!



João de Deus

Study in green







Ruud Van Empel

Natal Africano

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.



João Cabral do Nascimento

3 de dezembro de 2007

Numa tarde de Dezembro



Numa tarde de Dezembro
muito fria, enevoada
no meio duma cidade
barulhenta e apressada
pouca gente reparou
o que estava a suceder
num pinheiro muito alto.

Era um soberbo pinheiro
mais velho que os altos prédios
ruas, praças e avenidas
mais velho que toda a gente
que ali passava apressada
a correr para o autocarro
para o buraco do metro
para as linhas do comboio
para as luzes do hipermercado.

Na sua copa imensa
feita de mil abraços
abrigo de muitos mendigos
encosto de muitos velhos
cama de muitos pássaros
sombra de namorados
uma pomba encarnada
que ali estava aninhada
pôs-se a arrulhar de mansinho.

Nessa tarde de Dezembro
pouca gente reparou
que um pombo aflito
sobre o pinheiro voou
e deu um beijo na pomba
que arrulhava de mansinho
olhando embevecida
o seu filho pequenino:
um pequeno coração
batemdo muito apressado
dentro de um pequeno ninho.



poema de António Mota
ilustração de Kim Malek

Wishing you a merry time this Christmas


Diz que até não é um mau blog



Muito obrigada Carlos pelo seu reconhecimento, e pelas suas palavras.
Remeto o restante texto e nomeações para O Hálito Azul da Tarde.

13 de novembro de 2007

Mar Português | IV. O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo,
"El-Rei D. João Segundo!"

"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?"
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
"Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e disse,
"El-Rei D. João Segundo!"

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!"



Fernando Pessoa

Mar Sonoro




Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.




poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
pintura "Northeaster" de Winslow Homer

27 de outubro de 2007

O Universo


O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.





Poema de Albeto Caeiro
Ilustração de Kathleen Kemly

18 de outubro de 2007

Batem-me na face as asas daquele pássaro

Batem-me na face as asas daquele pássaro
que agora mesmo levantou voo
por detrás daquela onda.

Batem-me na face azul do mar
e salpicam-me os olhos de maresia,
de marés salgadas invisíveis.

As asas mornas e macias daquele pássaro,
encostam-se a mim como um almofada
cheia de espuma de ondas antigas.

Levantou voo o pássaro saído das águas grandes,
e como um anjo de asas enormes
tocou-me a alma, encheu-a de vida.




Ana Isabel

Sopro de estrelas | 1



Smile
Manuel Librodo

17 de outubro de 2007

Horizontes | 1. Junho

A esta
mesma
hora
em cada
praia

um piano
soluça
de alegria

Tarde
após tarde
cada vez
mais
tarde

nas suas
teclas
brancas
morre
o dia



David Mourão-Ferreira

9 de outubro de 2007

Como pintar um pássaro

Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.




Jacques Prévert
Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade
retirado do blog Poesia & LDA.

5 de outubro de 2007

Poemas

Entrei numa loja para te comprar um ramo de poemas, só tinham flores, disseram-me, mas eu não entendi a resposta, repeti que queria um ramo de poemas, voltaram a explicar-me que ali só vendiam flores, sugeriram-me vários tipos de flores, disseram-me os nomes, como sabes sou péssimo com os nomes das flores, apenas tenho memória para poemas, esforcei-me por fazer compreender esta minha particularidade, ninguém me entendia, à força de não me quererem vender poemas, impingiam-me flores, que cheiravam melhor, eram mais vivas, que as mulheres gostavam mais de flores, flores que eu não quero, definitivamente não quero, pois tenho-te a ti, ninguém dá flores às flores, o que eu quero mesmo é um ramo de poemas.



Henrique Fialho
do blog Insónia

2 de outubro de 2007

O meu caderno de folhas

Tenho folhas lanceoladas,
lobadas, lineares,
redondas, sagitadas,
elípticas, ovalares,
pilosas ou ciliadas,
filiformes, triangulares,
inteiriças, espatuladas,
em forma de coração.
E folhas A4 e A5,
lisas ou quadriculadas.
Mas estas não são
para aqui chamadas.
- Ou serão?






poema de Jorge Sousa Braga
ilustração "Reading again" de Irisz Agocs

A alfazema

- Fecha os olhos bem fechados,
e diz-me a que é que cheira.
Cheira a rosa, cheira a nardo,
ou a flor de laranjeira?

- Nem a rosa, nem a nardo,
nem a cravos, nem a cravinas
me cheira este poema.
O que me chega às narinas
é o cheiro da alfazema!



Jorge Sousa Braga

29 de setembro de 2007

Como se de repente ao coração do Sol

Como se de repente ao coração do Sol
as raízes da luz alguém as arrancasse...
Como se de repente as hélices do vento
arranhassem o ar, e o mar estivesse perto...
Como se de repente o Mundo entontecesse...

Foi tudo de repente e tudo ao mesmo tempo:
escuridão, rumor, frescura, movimento.

Mas de entre as espirais confusas quem sabia
se era de novo amor, se era só melodia?



David Mourão-Ferreira

25 de setembro de 2007

Delivery

Dorme enquanto eu velo...




Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.



poema de Fernando Pessoa
ilustração "Sonho" de Maria Elina

21 de setembro de 2007

Bela sopa


Bela sopa, quente, reconfortante

Na terrina fumegante,

Quem se recusa a provar
A bela sopa do jantar?

A bela sopa… do jantar
A be…la… Sopa do jan…tar.

Peixe. Carne. Sobremesa.
Não há nada sobre a mesa
Que se possa comparar
À bela sopa do jantar.

Quem quer peixe?
Carne? Caça?
Quanto mais vale tomar
A bela… sopa… do jan…tar
Be…la So…pa do jan…tar.




poema de Lewis Carroll
tradução de Ernesto Sampaio
retirado do Insónia
ilustração de Tiago Mestre

17 de setembro de 2007

A rosa de Granada




O vento traz nos cabelos
uma rosa de Granada,
que é a flor mais bela
para a minha namorada.
E vem dos canaviais
um sussurro de inveja
de uma pétala esmagada
por um caroço de cereja.
Mas a rosa de Granada,
feliz, não dá por nada
e fica tão encarnada
como a boca que a beija.


poema de Luís Infante
pintura "Meditative Rose" de Salvador Dali

12 de setembro de 2007

do livro...



"(...) Todas as tardes, Nam e eu subimos o caminho que nos conduz a casa.
Ela conta-me o seu dia. E canta. E salta ao pé-coxinho.
O seu riso ziguezagueia na noite que cai suavemente.

É assim a nossa vida.

Todos os dias.

Mudam apenas a cor dos arrozais e o perfume das caixas de chá.(...)"



escrito por Clotilde Bernos
com ilustrações de Nathalie Novi



O carrocel


Rodando no carrocel
subo e desço uma montanha.
No meu cavalo de pau,
A galope, quem me apanha?

À volta, à volta, entre o vento,
o riso, a luz, as canções,
corro entre duas girafas,
seguido por três leões.


poema de Luísa Ducla Soares
ilustração "Carousel" de Maria Carluccio

1 week of art works

6 de setembro de 2007

Singing in the rain

Gene Kelly

ser mar




mas eu só queria que chovesse
pra eu me juntar com os pingos
e de mãos dadas brincar de ser mar



poema de Paulo, do blog Coisas do Chão
ilustração "Underwater" de Irisz Agocs


Sun Xiao Li

O cavalo e o sonho

Um cavalo de crina branca
entrou-me pelo sonho
com um alegre relinchar.
Levou-me para uma ilha,
que era a quinta maravilha
do seu mundo de brincar.
Quis-me ensinar a montar,
mas eu fui parar ao chão,
onde vi uma ferradura
com forma de coração.
Acordei sobre uma sela
com a rédea na mão.


Luís Infante

...e nas asas do sono sonhar...



Cindy Revell

5 de setembro de 2007

Micropoética



Levantam canções no ar
os grilos sem terem voz

Com as asas é que nós
também devemos cantar



poema de David Mourão-Ferreira
ilustração de Brian Willse

12 de agosto de 2007

De partida para outras paragens...



Neil Brennan



Estou de partida para lugares mais calmos, com luas mais brilhantes...
Fiquem bem por cá.
Reencontramo-nos em Setembro!

A almofada do luar




Cai uma folha de Outono
sobre a toalha de linho
e lembra-me a cor do sono
quando as aves fazem ninho.
É uma folha amarela
que empurrada pelo vento
vem colar-se à janela
sob o tecto do relento.
E eu, ao vê-la poisar,
adormeço de repente
na almofada do luar.


poema de Luís Infante
ilustração de Irisz Agocs

O menino, a lua e o limão




Um menino
chamado João
engoliu uma lua
pensando que era um limão.
Não ficou azedo,
mas com o medo
nem percebeu
que tinha uma luz
em segredo
a brilhar no coração.


poema de Luís Infante
ilustração de Irisz Agocs