27 de junho de 2007

A estátua



Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios.


poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustração "The Little Mermaid Before a Statue in The Sea" de Ivan Bilibin

24 de junho de 2007

do livro...

O Rapaz de Bronze

"(...) Entre o roseiral e o parque, num lugar sombrio, solitário e verde, havia um pequeno jardim rodeado de árvores altíssimas que o cobriam com os seus ramos. No meio desse jardim havia um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze.
E durante o dia o Rapaz de Bronze não se podia mexer e tinha de estar muito quieto, sempre na mesma posição, porque era uma estátua, Mas durante a noite ele falava, mexia, caminhava, dançava e era ele quem mandava nos jardins, no parque, no pinhal, nos pomares e no campo. E todas as árvores e todos os animais e todas as plantas lhe obedeciam porque ele era o senhor do jardim e o rei da noite.(...)"



escrito por Sophia de Mello Breyner Andresen
com ilustrações de Júlio Resende

Hot Summer (II, III e IV)







Zheng Gang

Hot Summer (I e V)






Zheng Gang

19 de junho de 2007

O livro azul dos bonecos


No livro azul dos bonecos
eu ouvi rumores e ecos
de bruxas sonolentas
e de magos patarecos.
Fechei-o a sete chaves,
escondi-o em sotãos e caves
e no porão fundo das naves,
e no mais fundo de todos
encontrei um diamante
que era o olho postiço
de um pirata navegante
lá das bandas do Levante.


poema de Luís Infante
ilustração "Late night reading" de Chum Mcleod

Tenho gatos de sobra


Do abraço faz-se concha,
da saudade um aconchego;
quem me dera ter um cão
para afugentar o medo.
Mas tenho gatos de sobra
à minha volta a miar.
São felinos pequeninos
que me ensinam a saltar
atrás dos fios do novelo
que faço com o teu cabelo.



poema de Luís Infante
ilustração "Cat Pattern" de Patti Jennings

16 de junho de 2007

Fico assim sem você

do livro...



"(...) Nas noites mais quentes desse Verão, quando o calor não o deixava dormir, o rapaz descia, silencioso, pela janela do quarto e ia até ao ribeiro. Então, atirava umas pedrinhas para dentro de água, que era o sinal combinado para chamar o seu amigo. E o peixe, que dormia no seu buraco, feito com pedras e ramos de árvores arrastados pela corrente, acordava com o som das pedras a cair dentro de água e vinha ter com o rapaz à margem. E aí ficavam a conversar muito tempo, o rapaz contando o que se passava na escola e em casa, e o peixe contando tudo o que acontecia debaixo de água, dentro do rio.(...)"


escrito por Miguel Sousa Tavares
com ilustrações de Fernanda Fragateiro

11 de junho de 2007

As ondas quebraram uma a uma



As ondas quebraram uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.


poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustração "Swimming dreams" de Tracy Walker

Noite

Sózinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com o seu rosto altíssimo de estrelas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Carla Pott

10 de junho de 2007

Noite sem lua

Um homem pescou uma lua
com uma cana de bambu
num charco da sua rua,
tratando-a logo por tu
para lhe dizer somente:
"Sem ti lá no alto,
a noite ficou diferente;
agora não é minha
nem é tua, é apenas
uma noite sem ter lua".


Luís Infante

6 de junho de 2007

As minhas mãos



As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.


poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustração de Janice Fried

Lua

Entre a terra e os astros, flor intensa.
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.


Sophia de Mello Breyner Andresen