29 de setembro de 2007

Como se de repente ao coração do Sol

Como se de repente ao coração do Sol
as raízes da luz alguém as arrancasse...
Como se de repente as hélices do vento
arranhassem o ar, e o mar estivesse perto...
Como se de repente o Mundo entontecesse...

Foi tudo de repente e tudo ao mesmo tempo:
escuridão, rumor, frescura, movimento.

Mas de entre as espirais confusas quem sabia
se era de novo amor, se era só melodia?



David Mourão-Ferreira

25 de setembro de 2007

Delivery

Dorme enquanto eu velo...




Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.



poema de Fernando Pessoa
ilustração "Sonho" de Maria Elina

21 de setembro de 2007

Bela sopa


Bela sopa, quente, reconfortante

Na terrina fumegante,

Quem se recusa a provar
A bela sopa do jantar?

A bela sopa… do jantar
A be…la… Sopa do jan…tar.

Peixe. Carne. Sobremesa.
Não há nada sobre a mesa
Que se possa comparar
À bela sopa do jantar.

Quem quer peixe?
Carne? Caça?
Quanto mais vale tomar
A bela… sopa… do jan…tar
Be…la So…pa do jan…tar.




poema de Lewis Carroll
tradução de Ernesto Sampaio
retirado do Insónia
ilustração de Tiago Mestre

17 de setembro de 2007

A rosa de Granada




O vento traz nos cabelos
uma rosa de Granada,
que é a flor mais bela
para a minha namorada.
E vem dos canaviais
um sussurro de inveja
de uma pétala esmagada
por um caroço de cereja.
Mas a rosa de Granada,
feliz, não dá por nada
e fica tão encarnada
como a boca que a beija.


poema de Luís Infante
pintura "Meditative Rose" de Salvador Dali

12 de setembro de 2007

do livro...



"(...) Todas as tardes, Nam e eu subimos o caminho que nos conduz a casa.
Ela conta-me o seu dia. E canta. E salta ao pé-coxinho.
O seu riso ziguezagueia na noite que cai suavemente.

É assim a nossa vida.

Todos os dias.

Mudam apenas a cor dos arrozais e o perfume das caixas de chá.(...)"



escrito por Clotilde Bernos
com ilustrações de Nathalie Novi



O carrocel


Rodando no carrocel
subo e desço uma montanha.
No meu cavalo de pau,
A galope, quem me apanha?

À volta, à volta, entre o vento,
o riso, a luz, as canções,
corro entre duas girafas,
seguido por três leões.


poema de Luísa Ducla Soares
ilustração "Carousel" de Maria Carluccio

1 week of art works

6 de setembro de 2007

Singing in the rain

Gene Kelly

ser mar




mas eu só queria que chovesse
pra eu me juntar com os pingos
e de mãos dadas brincar de ser mar



poema de Paulo, do blog Coisas do Chão
ilustração "Underwater" de Irisz Agocs


Sun Xiao Li

O cavalo e o sonho

Um cavalo de crina branca
entrou-me pelo sonho
com um alegre relinchar.
Levou-me para uma ilha,
que era a quinta maravilha
do seu mundo de brincar.
Quis-me ensinar a montar,
mas eu fui parar ao chão,
onde vi uma ferradura
com forma de coração.
Acordei sobre uma sela
com a rédea na mão.


Luís Infante

...e nas asas do sono sonhar...



Cindy Revell

5 de setembro de 2007

Micropoética



Levantam canções no ar
os grilos sem terem voz

Com as asas é que nós
também devemos cantar



poema de David Mourão-Ferreira
ilustração de Brian Willse