25 de maio de 2007

Inscrições sobre as ondas



Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.


poema de David Mourão Ferreira
ilustração "Walking" de Anne Horst

22 de maio de 2007

Awaiting the return



Espero o teu regresso na luz da tarde
Olhando o caminho quase adormecido,
E o vento levanta as folhas perdidas
Cantando perto do meu ouvido.

Espero quieta e ansiosa
Pelo riso do teu olhar,
E pela dança das tuas mãos
Que me fazem sossegar.

Ao longe como uma árvore
Vejo-te crescer do chão,
E o tremor alegre dos teus passos
Embala já o meu coração.



Ana Isabel
pintura de Han Wu Shen

18 de maio de 2007

Canção para a minha filha Isabel adormecer quando tiver medo do escuro



Nem sombra nem luz
nem sopro de estrela
nem corpinhos nus
de anjos à janela
nem asas de pombos
nem algas no fundo
nem olhos redondos
espantados do mundo
nem vozes na ilha
nem chuva lá fora
dorme minha filha
que eu não vou embora


poema de António Lobo Antunes
pintura "Lullaby" de Pierre Delattre

16 de maio de 2007

Águia e andorinha



A minha mãe deu-me asas
para eu voar mais alto
que as chaminés das casas
sem sentir o sobressalto
que às vezes, ao voar,
faz tremer as aves
com medo de poisar.
Não tenho penas nem bico,
mas sou águia e andorinha
nestes ramos em que fico.


poema de Luís Infante
pintura "Crianças voadoras" de Paula Rego

Rapariga descalça



Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em Abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem,
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga - os seus formosos pés -
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.


poema de Eugénio de Andrade
ilustração de Janice Fried

11 de maio de 2007

Beach Scene



Winslow Homer

Mar

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen

10 de maio de 2007

Mãos




Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.




poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustração "Parenting" de Tracy Walker

8 de maio de 2007

Poema à Mãe



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
ao fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esquecerei de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


poema de Eugénio de Andrade (enviado pela Nita)
pintura de Eng Tay

Fresh Air



Winslow Homer

7 de maio de 2007

A arca de Noé



Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.

E abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.

Tão verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: "Boa terra
Para plantar minhas vinhas!"

E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.

Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.

E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.

Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora as cabeças botam.

Grita uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um burro.

A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.

Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pêlo
Pela terra prometida.

"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta; e o tigre – "Não!"

Afinal, e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.

Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista.

Na serra o arco-íris se esvai...
E... desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória

Enchem o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.


poema de Vinicius de Moraes
pintura de Edward Hicks

5 de maio de 2007

Uma formiga



Uma formiga de dezoito metros
Com um chapéu na mão
Não existe não existe não

Uma formiga puxando um camião
Cheio de pinguins e de patos
Não existe não existe não

Uma formiga falando francês
Falando latim e javanês
Não existe não existe não

E já agora por que não?


poema de Jorge Sousa Braga
ilustração de Cristina Valadas