27 de outubro de 2007

O Universo


O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.





Poema de Albeto Caeiro
Ilustração de Kathleen Kemly

18 de outubro de 2007

Batem-me na face as asas daquele pássaro

Batem-me na face as asas daquele pássaro
que agora mesmo levantou voo
por detrás daquela onda.

Batem-me na face azul do mar
e salpicam-me os olhos de maresia,
de marés salgadas invisíveis.

As asas mornas e macias daquele pássaro,
encostam-se a mim como um almofada
cheia de espuma de ondas antigas.

Levantou voo o pássaro saído das águas grandes,
e como um anjo de asas enormes
tocou-me a alma, encheu-a de vida.




Ana Isabel

Sopro de estrelas | 1



Smile
Manuel Librodo

17 de outubro de 2007

Horizontes | 1. Junho

A esta
mesma
hora
em cada
praia

um piano
soluça
de alegria

Tarde
após tarde
cada vez
mais
tarde

nas suas
teclas
brancas
morre
o dia



David Mourão-Ferreira

9 de outubro de 2007

Como pintar um pássaro

Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.




Jacques Prévert
Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade
retirado do blog Poesia & LDA.

5 de outubro de 2007

Poemas

Entrei numa loja para te comprar um ramo de poemas, só tinham flores, disseram-me, mas eu não entendi a resposta, repeti que queria um ramo de poemas, voltaram a explicar-me que ali só vendiam flores, sugeriram-me vários tipos de flores, disseram-me os nomes, como sabes sou péssimo com os nomes das flores, apenas tenho memória para poemas, esforcei-me por fazer compreender esta minha particularidade, ninguém me entendia, à força de não me quererem vender poemas, impingiam-me flores, que cheiravam melhor, eram mais vivas, que as mulheres gostavam mais de flores, flores que eu não quero, definitivamente não quero, pois tenho-te a ti, ninguém dá flores às flores, o que eu quero mesmo é um ramo de poemas.



Henrique Fialho
do blog Insónia

2 de outubro de 2007

O meu caderno de folhas

Tenho folhas lanceoladas,
lobadas, lineares,
redondas, sagitadas,
elípticas, ovalares,
pilosas ou ciliadas,
filiformes, triangulares,
inteiriças, espatuladas,
em forma de coração.
E folhas A4 e A5,
lisas ou quadriculadas.
Mas estas não são
para aqui chamadas.
- Ou serão?






poema de Jorge Sousa Braga
ilustração "Reading again" de Irisz Agocs

A alfazema

- Fecha os olhos bem fechados,
e diz-me a que é que cheira.
Cheira a rosa, cheira a nardo,
ou a flor de laranjeira?

- Nem a rosa, nem a nardo,
nem a cravos, nem a cravinas
me cheira este poema.
O que me chega às narinas
é o cheiro da alfazema!



Jorge Sousa Braga