28 de fevereiro de 2007

A vida



Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
— A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!


poema de Olavo Bilac
ilustração "Swingstar" de Janice Fried

27 de fevereiro de 2007

Dream Garden



Wang Yi Guang

As trepadeiras

Trepem, trepem trepadeiras!
Trepem, trepem pelo ar!
Que de plantas rasteiras,
está a terra a abarrotar.

Trepem, trepem trepadeiras!
Trepem, trepem sem parar!
E se o muro se acabar,
trepem, trepem trepadeiras,
por um raio de luar.

Jorge Sousa Braga

26 de fevereiro de 2007

Happy Friends


Betsy Everitt

Vai alta no céu a lua da Primavera

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira,
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Alberto Caeiro

23 de fevereiro de 2007

Deixa a luz acesa


























Deixa a luz acesa
Para na volta me alumiar,
Venho de longe no final do dia
E depressa quero chegar
Para te puder abraçar.

Deixa a luz acesa
Para o caminho me encontrar,
Desço pelo rio
Com a noite a cair
E já te vejo a sorrir.

Deixa a luz acesa
Para seres o meu luar,
Nestas águas cintilantes
Navega o meu coração
Até à beira da tua mão.

Deixa a luz acesa
Para o mundo sossegar,
E ficaremos de mãos dadas
Com as estrelas a brilhar
Até de novo o sol raiar.






Ana Isabel
ilustração "Leave the light on" de Richard Johnson

The butterfly catchers
























Richard Johnson

22 de fevereiro de 2007

Quero um cavalo de várias cores















Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sózinho
Sem um cavalo de várias cores?

poema de Reinaldo Ferreira
pintura "Flower Beds in Holland" de Vincent Van Gogh
Calvin & Hobbes 2


Público online - Tradução de Helena Gubernatis

16 de fevereiro de 2007

Até à Costa Malabar


















Vem-me de longe um eco
que é de mar e é de brisa.
Vem de um veleiro sueco
a navegar em seco
enquanto, na camisa,
eu desenho a passarola
que me há-de transportar,
numa padiola,
até à Costa Malabar,
onde só há veleiros
com velas de sonhar.

poema de Luís Infante
ilustração "Sailboat" de Melanie J. Hodge

14 de fevereiro de 2007

O beijo





















Karla Gudeon

Amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

12 de fevereiro de 2007

As árvores e os livros


As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas, e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

poema de Jorge Sousa Braga
ilustração "Swan Garden" de Andrea Cobb

Devagar no jardim


Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.

poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustração "June isolation" de Andrea Cobb

9 de fevereiro de 2007

O Búzio



















Pus um búzio da praia
na concha do meu ouvido.
Logo ouvi o mar chamar
muito longe, num gemido.

Ó mar,
Ó mar...

Peguei num búzio das águas,
pousado ali na areia.
Ele guardava a canção
secreta duma sereia.

Ó mar,
Ó mar...

É só um búzio das ondas,
todos o julgam vazio.
Mas eu viajo lá dentro
num sonho feito navio.

Ó mar,
Ó mar...

poema de Luísa Ducla Soares
ilustração de Janice Fried

8 de fevereiro de 2007

Calvin & Hobbes 1


Público online - Tradução de Helena Gubernatis


















Carla Pott

A Amiga da China

Tangerina que tanges
O Sol do meio-dia
És cara de menina
Com pintas de alegria.

Teus gomos perfumados
Tua pele tão fina
Tangerina tão doce
Que vieste da China

Quando ia para a escola
Teu perfume nas mãos
Teu perfume no bibe
Nos cadernos. No pão.

Tu eras tão bonita!
Eu era tão menina!
Que saudades eu tenho
Minha amiga da China!

Matilde Rosa Araújo

6 de fevereiro de 2007

Sete anos de pastor Jacob servia



















Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: − Mais servira, senão fora
Para tão longo amor tão curta a vida.

soneto de Luís de Camões
ilustração "Love" de Janice Fried

5 de fevereiro de 2007

3 de fevereiro de 2007

À garupa da lua

Vou à garupa da lua
até onde me levar
a voz da minha mãe
e o embalo do luar.
Irei aos campos de trigo,
ao canteiro das açucenas
onde adormecem as fadas
enquanto são pequenas.


Luís Infante

Flute Kids



















Teresa Flavin

2 de fevereiro de 2007

Quando as crianças brincam

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa

As meninas














Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina
a mais sábia menina.

E Maria
Apenas sorria:
"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

poema de Cecília Meireles
pintura de Karla Gudeon

Poema com asas














Asas têm
As garças
As andorinhas
Os tira-olhos
As traças
E as joaninhas
E também
O tentilhão
A narceja
A toutinegra
E o tecelão
Asas têm
O gavião
O peneireiro
E o açor
E já agora
Os anjos
O avião
E o planador
E também
Os nandus
A avestruz
E a pintada
Mas não
Lhes servem
Para nada
O morcego
Não tem asas
Tem uma
Membrana alar
Asas tem
Este poema
Para te fazer
Voar

poema de Jorge Sousa Braga
ilustração de Cristina Valadas