17 de dezembro de 2008

Cotovia

- Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?
- Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento.
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.
- Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.
- Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

- E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

- Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

- Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

- Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
- Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.




Manuel Bandeira


Para o Carlos do Almofariz...Bem-vindo!

Time out


Julie Blackmon

Powerade



Julie Blackmon

24 de outubro de 2008

Havia um menino

Havia um menino,
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.



Fernando Pessoa

16 de outubro de 2008

Amarelo razoável...tipo Sol

A menina disse à mãe:
- Mamã! Preciso de plasticina..de 3 cores. Azul claro, amarelo razoável...tipo Sol, e um encarnado...assim...bonito!
No dia seguinte a mãe comprou uma caixinha de plasticina para a sua menina. Na caixinha havia várias cores, o azul claro, um encarnado...que a mãe achou bonito mas...nenhum amarelo razoável...tipo Sol!!!



...de uma conversa com a minha filha Sofia.

The Seven Wonderful Cats






Elizabeth Webbe

Tudo menos Tristeza

Há uma gata siamesa
que se senta à minha mesa
e me pede que lhe chame
tudo menos Tristeza,
porque no seu pêlo macio
que lembra café e baunilha
está desenhada uma ilha
toda feita de alegria,
onde os gatos são os reis
das noites de fantasia.


Luís Infante

12 de agosto de 2008

30 de julho de 2008

Anjinho da guarda



Eu tenho um anjo
Anjo da guarda
Que me protege
De noite e de dia
Eu não o vejo
Eu não o oiço
Mas sinto sempre
A sua companhia

Eu tenho um guarda
Que é um anjo
Que me protege
De noite e de dia
Não usa arma
Não usa a força
Usa uma luz
Com que ilumina
A minha vida

Ele não
Não usa arma
Ele não
Não usa a força
Usa uma luz
Com que ilumina
A minha vida


Três Tristes Tigres
cantam António Variações

24 de julho de 2008

The Birds

Pixar

Desejos soltos nas mãos

Desejos soltos nas mãos,
entre os dedos, guardados,
como pequenos duendes cheios de cores, felizes
saltam nos meus cabelos
e adormecem atrás das minhas orelhas,
segredando-me em sonhos os dias do meu futuro.

Desejos pequenos e belos, inúmeros,
como estrelas doces que saboreio no céu da minha boca.



Ana Isabel

25 de junho de 2008

Quando crescemos cabemos numa parte...

Quando algo é realmente grande cabe em cada parte
O jardim cabe na flor, o sol no quartinho escuro
A lua cabe no lago, e o azul cabe no teu peito
Cada parte de nós cabe naquele único abraço
E cada poesia cabe na emoção do leitor que a lê
Há um universo inteiro voando numa gaivota
Toda a energia, cabe num átomo, num pulsar

Porque quando algo é realmente grande cabe
sempre no começo, porque não tem fim...
A gente parte, a gente parece que retorna,
Mas há que se repartir muito para voltar inteiro
Eu vejo a foto do menino que eras e bem sei...
Foste pequeno, mas tua grandeza já cabia em ti.



Carol Timm

Sopro de estrelas | 4



Colour play 2
Manuel Librodo

24 de junho de 2008

Paul Klee



Os olhos como barcos,
entro escondida
num quadro do Klee.
O céu é a rua,
e o equilibrista,
quase sem respirar,
me ensina os segredos da vida.
Sobretudo, ele me diz,
é preciso saber conservar
as pernas no ar
e manter o olhar perdido;
Carregar pedaços de lua
no pensamento e sonhar.
A vida é pura navegação
e saio do quadro
como um pássaro invisível.










poema de Roseana Murray
pinturas Magic Garden, A Young Lady's Adventure, Fairy Tales, Landscape with Yellow Birds e Red Balloon, de Paul Klee

20 de junho de 2008

Fadas e Bruxas




Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorri;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.



poema de Roseana Murray
ilustração de Rébecca Dautremer

1 de maio de 2008

Uma fada é um rumor





Uma fada é um rumor
que sai da erva, rasteiro,
e que transforma em calor
o frio áspero de Janeiro.
Quem foi que não encontrou
uma fada num canteiro
murmurando coisas belas
a um velho jardineiro
que largou rugas e mágoas
e se transformou em cavaleiro?



poema de Luís Infante
ilustração "Fairy garden" de Heather Castles

29 de fevereiro de 2008

História do Sr. Mar




Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...

E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...

A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...



poema de Matilde Rosa Araújo
ilustração de Janice Fried

14 de fevereiro de 2008

Sopro de estrelas | 3


Karina Bertoncini



Timidez

O bicho-de-conta
Faz de conta, faz
Que é cabeça tonta

Mas lá bem no fundo
Não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca,
Logo se disfarça:
Veste-se de bola.

Por mais que se faça
Não se desenrola.

Lá dentro escondendo
Patinhas e rosto
É todo um segredo:

Se eu fosse menino
Comigo brincava
Sem medo sem medo.



Maria Alberta Menéres

1 de fevereiro de 2008

1 ano a esvoaçar!!!



...e fazemos hoje 1 ano!
Esta celebração é partilhada com todos os que por aqui vão passando...e deixando as suas marcas.





ilustração de Kathy Weller

22 de janeiro de 2008

Flying Umbrellas



Julie Blackmon

Contemplo o lago mudo

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?



Fernando Pessoa

18 de janeiro de 2008

Frutos

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.



Eugénio de Andrade

Birds at Home


Julie Blackmon

14 de janeiro de 2008

Canção de Leonoreta

Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais, que me não levas,
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá,
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que não me levas contigo…



Eugénio de Andrade