8 de maio de 2007

Poema à Mãe



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
ao fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esquecerei de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


poema de Eugénio de Andrade (enviado pela Nita)
pintura de Eng Tay

1 comentário:

Bel disse...

Olá...estou passando por aqui pra lhe relatar uma grande coincidência...estava aqui na net à procurar uma poesia especial que falasse de borboletas...e eis que chego aqui e encontro outra Ana Isabel..haha..também sou Ana Isabel e convenhamos temos um nome lindo e nada comum..rsrs..e pra completar a coincidência encontro em teu blog borboletas e Caeiro (depois de Manoel de Barros, Caeiro é meu poeta favorito).
Parabéns pelo blog...é lindo!!!
E quando quiser apareça para conhecer o meu ...
http://florluarestrelamar.blogspot.com/

Beijos da Ana Isabel =) haha