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Numa tarde de Dezembro



Numa tarde de Dezembro
muito fria, enevoada
no meio duma cidade
barulhenta e apressada
pouca gente reparou
o que estava a suceder
num pinheiro muito alto.

Era um soberbo pinheiro
mais velho que os altos prédios
ruas, praças e avenidas
mais velho que toda a gente
que ali passava apressada
a correr para o autocarro
para o buraco do metro
para as linhas do comboio
para as luzes do hipermercado.

Na sua copa imensa
feita de mil abraços
abrigo de muitos mendigos
encosto de muitos velhos
cama de muitos pássaros
sombra de namorados
uma pomba encarnada
que ali estava aninhada
pôs-se a arrulhar de mansinho.

Nessa tarde de Dezembro
pouca gente reparou
que um pombo aflito
sobre o pinheiro voou
e deu um beijo na pomba
que arrulhava de mansinho
olhando embevecida
o seu filho pequenino:
um pequeno coração
batemdo muito apressado
dentro de um pequeno ninho.



poema de António Mota
ilustração de Kim Malek

Comentários

livia soares disse…
Olá, querida.
Gostei muito desta postagem e das anteriores também. Parabéns por este espaço; é tão belo quanto o Hálito.
Um abraço.
Lívia está corretíssima, mais uma vez. Sobre tudo o quanto falou!
.
Acerca do poema, distingui ligeira semelhança com o que aqui chamamos de tradição cordelista, guardadas as devidas proporções, principalmente pelo ritmo dos versos. Afora isso, compõe a bela atmosfera natalina aqui instalada.
.
Abraços, Ana.
Carlos

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