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A mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade

Rosa

É uma rosa amarela. Uma rosa de verão. Sempre uma rosa em botão estava posta à janela. Quem mora naquela casa certamente que sabia quanto essa rosa em botão, seja branca ou amarela, perfuma todo o verão. poema de Eugénio de Andrade ilustração Summer Roses de Lisa Holley

a rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar da rosa brava e do mar. A rosa é tão delicada, o mar tão impetuoso, que não sei como os juntar e convidar para um chá na casa breve do poema. O melhor é não falar: sorrir-lhes só da janela. Eugénio de Andrade

Frutos

Pêssegos, peras, laranjas, morangos, cerejas, figos, maçãs, melão, melancia, ó música de meus sentidos, pura delícia da língua; deixai-me agora falar do fruto que me fascina, pelo sabor, pela cor, pelo aroma das sílabas: tangerina, tangerina. Eugénio de Andrade

Canção de Leonoreta

Borboleta, borboleta, flor do ar, onde vais, que me não levas, Onde vais tu, Leonoreta? Vou ao rio, e tenho pressa, não te ponhas no caminho. Vou ver o jacarandá, que já deve estar florido. Leonoreta, Leonoreta, que não me levas contigo… Eugénio de Andrade

Rapariga descalça

Chove. Uma rapariga desce a rua. Os seus pés descalços são formosos. São formosos e leves: o corpo alto parte dali, e nunca se desprende. A chuva em Abril tem o sabor do sol: cada gota recente canta na folhagem, O dia é um jogo inocente de luzes, de crianças ou beijos, de fragatas. Uma gaivota passa nos meus olhos. E a rapariga - os seus formosos pés - canta, corre, voa, é brisa, ao ver o mar tão próximo e tão branco. poema de Eugénio de Andrade ilustração de Janice Fried

Poema à Mãe

No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe! Tudo porque já não sou o retrato adormecido ao fundo dos teus olhos! Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais! Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz. Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura! Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos... Mas tu esqueceste muita coisa! Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe! Olha - queres ouvir-me? -, às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos; ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura; ainda oiço a tua voz: Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal... Mas - tu sabes! - a noite é enorme e todo o meu corpo cresceu...Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber, Não me esquecerei de nada, mãe. G...

Sê paciente

Sê paciente; espera que a palavra amadureça e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a mereça. poema de Eugénio de Andrade ilustração "Apple" de Janice Fried

Despertar

É um pássaro, é uma rosa, é o mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar. poema de Eugénio de Andrade ilustração "Red bird" de Tracy Walker