Pinte primeiro uma gaiola com a porta aberta. Em seguida pinte alguma coisa graciosa, alguma coisa simples, alguma coisa bonita, alguma coisa útil... ao pássaro. Depois, coloque a tela contra uma árvore no jardim, no bosque ou na floresta e esconda-se atrás da árvore sem dizer nada, sem se mexer. Às vezes o pássaro chega logo, mas pode levar muitos, muitos anos até se resolver. Não desanime, espere. Espere, se preciso, durante anos. A velocidade ou a lentidão da chegada do pássaro, não tem a menor relação com a qualidade da pintura. Quando ele chegar (se chegar) mantenha o mais profundo silêncio, espere que ele entre na gaiola. Depois que entrar, feche lentamente a porta com o pincel. Aí então apague uma por uma todas as varetas. (Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena do pássaro.) Finalmente pinte a árvore, reservando o mais belo de seus ramos ao pássaro. Pinte também a verde folhagem e a doçura do vento, a poeira do sol, o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da estação. Depoi...
Passa uma borboleta por diante de mim e pela primeira vez no Universo eu reparo que as borboletas não têm cor nem movimento, assim como as flores não têm perfume nem cor. A cor é que tem cor nas asas da borboleta, no movimento da borboleta o movimento é que se move, o perfume é que tem perfume no perfume da flor. A borboleta é apenas borboleta e a flor é apenas flor. Alberto Caeiro