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A mostrar mensagens com a etiqueta Poetas Portugueses

Chove. É dia de Natal.

Chove. É dia de Natal. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal, E o frio que ainda é pior. E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. Chove no Natal presente. Antes isso que nevar. Pois apesar de ser esse O Natal da convenção, Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não. Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez, Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés. Fernando Pessoa

Ler doce ler (excertos)

Os livros são casas com meninos dentro e gostam de os ouvir rir, de os ver sonhar e de abrirem de par em par as paisagens e as imagens para eles, lendo, poderem sonhar. Os livros gostam de se deitar nas almofadas dos meninos partilhando o seu sono quando eles são pequeninos e de ir com eles para escola misturados com os cadernos e com os beijos dos pais, sempre quentes, sempre ternos.   Os livros gostam de ser amados, de ser lidos e lembrados e de crescer com os meninos com que foram embalados. Os livros têm um sonho: o de ver outros livros nascer para que a paixão da leitura não possa nunca morrer. José Jorge Letria

Joana e a Tartaruga

Dona Tartaruga seja boazinha estique a cabecinha lá da carapaça e diga a quem passa  quantos anos tem. É que ouvi dizer que tem mais de cem! Quer saber quem sou?! Eu sou a Joana. E tenho um irmão. Sou muito pequena; só tenho seis anos... Mas já sei fazer bolas de sabão! Se eu ando na escola?! Claro que sim! Sei a tabuada melhor que ninguém... Agora responda seja boazinha estique a cabecinha lá da carapaça e diga a quem passa quantos anos tem! Porque é que pergunto?! Pois bem para saber! É que há muita coisa que eu ainda não sei. Que eu ainda não sei mas que hei-de aprender! Se gosto de bichos?! Não hei-de gostar? Tenho um Periquito um Grilo Grilão um Galo-da-Índia três Pombos-Correios um Gato e um Cão! Mas vamos responda! Não seja mázinha nem faça pirraça! Estique a cabecinha lá da carapaça e diga à Joana quantos anos tem. É mesmo verdade que tem mais de cem?! Soledade Martinho Costa

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu. Fernando Pessoa

Este menino

Este Menino é pequenino, qual passarinho a querer poisar devagarinho. Devagarinho poisa no ninho que o colo tem: ninho do colo da sua mãe. Maria Alberta Menéres

Tenho uma coisa para te entregar

Tenho uma coisa para te entregar, uma pedra a pôr no chão da rua, uma lunar presença sob o sol. Tenho uma coisa para te devolver, para ficar minha sendo tua, aquecida no tempo e nestes olhos. Tenho uma coisa que eu te posso dar que é o vento a vir atrás do verde e a dizer azul no teu cabelo. poema de Pedro Tamen ilustração de Renée Nault

O sonho

Pelo sonho é que vamos, Comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não frutos, Pelo Sonho é que vamos. Basta a fé no que temos. Basta a esperança naquilo Que talvez não teremos. Basta que a alma demos, Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia. Chegamos? Não chegamos?  -Partimos. Vamos. Somos. Sebastião da Gama

Quem me quiser

Quem me quiser há-de saber as conchas a cantigas dos búzios e do mar. Quem me quiser há-de saber as ondas e a verde tentação de naufragar. Quem me quiser há-de saber as fontes, a laranjeira em flor, a cor do feno, à saudade lilás que há nos poentes, o cheiro de maçãs que há no inverno. Quem me quiser há-de saber a chuva que põe colares de pérolas nos ombros há-de saber os beijos e as uvas há-de saber as asas e os pombos. Quem me quiser há-de saber os medos que passam nos abismos infinitos a nudez clamorosa dos meus dedos o salmo penitente dos meus gritos. Quem me quiser há-de saber a espuma em que sou turbilhão, subitamente - Ou então não saber a coisa nenhuma e embalar-me ao peito, simplesmente. Rosa Lobato de Faria ilustração de Taia Morley

Quero dar-te

Quero dar-te a coisa mais pequenina que houver bago de arroz grão de areia semente de linho suspiro de pássaro pedra de sal som de regato a coisa mais pequena do mundo a sombra do meu nome o peso do meu coração na tua pele. poema de Rosa Lobato de Faria ilustração "Bird" de Sarah Beetson

As pequenas palavras

De todas as palavras escolhi água, porque lágrima, chuva, porque mar porque saliva, bátega, nascente porque rio, porque sede, porque fonte. De todas as palavras escolhi dar. De todas as palavras escolhi flor porque terra, papoila, cor, semente porque rosa, recado, porque pele porque pétala, pólen, porque vento. De todas as palavras escolhi mel. De todas as palavras escolhi voz porque cantiga, riso, porque amor porque partilha, boca, porque nós porque segredo, água, mel e flor. E porque poesia e porque adeus de todas as palavras escolhi dor. Rosa Lobato de Faria

Rosa

É uma rosa amarela. Uma rosa de verão. Sempre uma rosa em botão estava posta à janela. Quem mora naquela casa certamente que sabia quanto essa rosa em botão, seja branca ou amarela, perfuma todo o verão. poema de Eugénio de Andrade ilustração Summer Roses de Lisa Holley

a rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar da rosa brava e do mar. A rosa é tão delicada, o mar tão impetuoso, que não sei como os juntar e convidar para um chá na casa breve do poema. O melhor é não falar: sorrir-lhes só da janela. Eugénio de Andrade

Havia um menino

Havia um menino, que tinha um chapéu para pôr na cabeça por causa do sol. Em vez de um gatinho tinha um caracol. Tinha o caracol dentro de um chapéu; fazia-lhe cócegas no alto da cabeça. Por isso ele andava depressa, depressa p’ra ver se chegava a casa e tirava do chapéu, saindo de lá e caindo o tal caracol. Mas era, afinal, impossível tal, nem fazia mal nem vê-lo, nem tê-lo: porque o caracol era do cabelo. Fernando Pessoa

Tudo menos Tristeza

Há uma gata siamesa que se senta à minha mesa e me pede que lhe chame tudo menos Tristeza, porque no seu pêlo macio que lembra café e baunilha está desenhada uma ilha toda feita de alegria, onde os gatos são os reis das noites de fantasia. Luís Infante

Paul Klee

Os olhos como barcos, entro escondida num quadro do Klee. O céu é a rua, e o equilibrista, quase sem respirar, me ensina os segredos da vida. Sobretudo, ele me diz, é preciso saber conservar as pernas no ar e manter o olhar perdido; Carregar pedaços de lua no pensamento e sonhar. A vida é pura navegação e saio do quadro como um pássaro invisível. poema de Roseana Murray pinturas Magic Garden, A Young Lady's Adventure, Fairy Tales, Landscape with Yellow Birds e Red Balloon, de Paul Klee

Uma fada é um rumor

Uma fada é um rumor que sai da erva, rasteiro, e que transforma em calor o frio áspero de Janeiro. Quem foi que não encontrou uma fada num canteiro murmurando coisas belas a um velho jardineiro que largou rugas e mágoas e se transformou em cavaleiro? poema de Luís Infante ilustração "Fairy garden" de Heather Castles

História do Sr. Mar

Deixa contar... Era uma vez O senhor Mar Com uma onda... Com muita onda... E depois? E depois... Ondinha vai... Ondinha vem... Ondinha vai... Ondinha vem... E depois... A menina adormeceu Nos braços da sua Mãe... poema de Matilde Rosa Araújo ilustração de Janice Fried

Timidez

O bicho-de-conta Faz de conta, faz Que é cabeça tonta Mas lá bem no fundo Não é mau rapaz. Se a gente lhe toca, Logo se disfarça: Veste-se de bola. Por mais que se faça Não se desenrola. Lá dentro escondendo Patinhas e rosto É todo um segredo: Se eu fosse menino Comigo brincava Sem medo sem medo. Maria Alberta Menéres

Contemplo o lago mudo

Contemplo o lago mudo Que uma brisa estremece. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece. O lago nada me diz, Não sinto a brisa mexê-lo Não sei se sou feliz Nem se desejo sê-lo. Trêmulos vincos risonhos Na água adormecida. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida? Fernando Pessoa

Frutos

Pêssegos, peras, laranjas, morangos, cerejas, figos, maçãs, melão, melancia, ó música de meus sentidos, pura delícia da língua; deixai-me agora falar do fruto que me fascina, pelo sabor, pela cor, pelo aroma das sílabas: tangerina, tangerina. Eugénio de Andrade